
E sabe que eu ainda fico besta quando vejo gente torcendo pra nevar aqui no Sul? Me dá uma vontade de pegar esse povo, dar uma xícara de café bem quente, desses de dar calorão na hora e jogar numa bica de água bem gelada, dessas águas de beira de rio mesmo, que é pra fazer sair com a boca torta na hora. Minha vó que diz: “Minha filha, não toma coisa quente se for sair no frio, senão entorta o beiço!”
Ora, como pode uma coisa dessas? Mas tudo bem. O que se vê aí fora é resultado de novelinha da Globo (que, vamos falar sério, cada dia piores, enfim) que mostra aquela neve linda, maravilhosa. Mas esquece de mostrar os pêlos arrepiados do povo que está vendo a neve.
E pra nós gaúchos de primeira linha, o inverno é uma grande merda. Inverno bonito é aquele de turistinha que fica em hall de entrada de hotel com ar condicionado, duzentos de casacos, quinze blusas de lã, sete echarpes, e uns 3 gorros de lã de carneiro. Isso pra não falar das meias por baixo das calças e botas cano longo. Aí ficam (obviamente) do lado de dentro do hotel, tomando chocolate quente e dizendo: “Ai meu querido, que linda essa neve aqui do Sul. Que povo privilegiado. Aposto que não dão valor!” Então, num ímpeto de coragem, correm lá fora, atiram umas bolas de neve uns nos outros, apenas pelo tempo suficiente do guri do hotel tirar uma foto deles e entrarem correndo pra dentro, azuis como anil, beiços roxos de frio e dizerem: “Ufa! Isso sim é que é aproveitar!”
Já eu acho o inverno uma droga. Acordo às 6h da manhã, o sol nem nasceu. Acordo com uma raiva desgraçada do maldito celular que insiste em obedecer meu comando de despertar. Visto o sobretudo que já está a postos ao lado da minha cama, e corro aquecer uma água pra fazer um chá e esquentar o corpo no frio. Então vou pro banho. Banho é outra droga. Você tira as roupas e as unhas já arroxam de frio. Por mais que você aqueça a água do chuveiro no nível “água de pelar porco” (juro que acho que isso deveria vir com um botãozinho extra nas duchas gaúchas, para dar conta do frio “invernal”) , o primeiro contato com a sua pele SEMPRE vai ser gelado. E aí arrepia tudo e dá vontade de desistir. Mas como aprendi com meus antepassados índios e não com os europeus que banho é bom e nem todo mundo gosta, vou lá. Depois de se aquecer na água a pior parte é sair. Desisto de sair do banho umas 5 vezes até me dar conta de que se eu demorar muito a conta de luz vai vir mais alta ainda e minha mãe vai querer me matar. Vendo por esse lado, acho melhor sair. Me visto com rapidez recorde e corro beber o tal chá pra me aquecer então. Como alguma coisa e começa a maratona de vestir.
Nossa, essa é outra novela. Ter que vestir uma blusa de algodão, mais uma de malha e mais a de lã. E ainda precisar escolher o casaco certo para a temperatura do dia. E tudo isso tentando NÃO parecer o Robocop depois. Então, saio.
Na parada do ônibus (como boa representante da classe trabalhadora, pego busão), o vento dá vontade de morrer. E a parada não é coberta, é um micro-poste com um desenhinho de ônibus que evita que o motorista passe direto da gente. E o maldito vento-de-frigorífico Minuano sopra forte e gelado e as orelhas doem que parecem que vão cair. E luva não adianta, e gorro não adianta e a roupa não adianta! Você VAI passar frio o dia todo. A menos que no seu trabalho tenha aquecedor ou ar-condicionado. No meu caso eu só me lasco, não tem.
O dia todo é frio pra caramba, parece que o vento penetra pelas paredes e chega até minha sala. E, se tudo correr como a meteorologia prevê, vai haver muita umidade, cabelos arrepiados, narizes com ranhos congelados, pouco vento e… NEVE! Então eu vou tirar fotos toda feliz. Até os dedos dos meus pés começarem a doer de frio e eu começar a reclamar tudo de novo.
Saio do trabalho quase anoitecendo, vou pra academia e começa outra maratona: tirar aquele mundaréu de roupas e trocar pelas roupas leves de ginástica. E, depois, recolocar tudo, porque o frio lá fora não está de brincadeira. Com todo esse exercício, nem precisaria ir na academia, certo?
Chegar em casa tiriricando de frio, ter que enfrentar outra maratona de banho, fazer alguma coisinha e ir dormir na cama gelada. Se você for solteiro como eu então… MÁ NOITE PRA VOCÊ.
E isso tudo tirando as probabilidades de se entrar na nova moda mundial e morrer de Gripe A (H1N1). Piada mórbida? Eu sei mas.. e daí?
Agora me diz, você ainda quer ver neve no Rio Grande do Sul?
Aposto que sim, o ser humano é masoquista por natureza.