Hoje recebemos como convidado Duda Duba.
Vem nos falar sobre ser reconhecido ou não, né.

Eu não sou o tipo de cara que exagera em um assunto. Quer dizer, o exagero é a licença poética de todo o humorista, mas quando falo sério costumo ser bastante justo com a verdade. Se eu disser que a casa do Zé tá pegando fogo, não quero dizer que ele queimou uma camiseta com o ferro de passar, to dizendo que THE HOUSE IS ON FIRE. Se eu disser que a Joaninha é uma puta, não to falando que ela ficou com três na mesma festa. To dizendo que por cinqüenta reais ela faz tua alegria, tá ligado?
Pois então, a seguinte frase é totalmente factual: de uma a três vezes ao dia eu falo com, ou no mínimo cumprimento uma pessoa que não faço idéia de quem é, mas que me conhece.
(O único “p.s.” possível nessa frase é que esse “uma a três” reduz-se a zero nos dias em que não saio de casa, obviamente.)
Isso é totalmente bizarro. Não sei explicar sem parecer sensacionalista a freqüência com que essas coisas se repetem. Aí surgem as perguntas:
-Estarei muito dependente do Orkut (onde o rosto vem acompanhado de nome, amigos em comum e dados pessoais)?
-Serão os tóxicos?
-Deveria eu parar de dar trela pra qualquer maloqueiro que me aparece?
Mas a real é que não conhecer as pessoas tem um certo glamour. Significa que, de alguma forma, você foi mais importante pra ela do que ela pra ti. Principalmente quando ela ministra um esforço enorme pra fazer tua memória funcionar.
(com a infelicidade de que ninguém parece acreditar nos “juro que não é pessoal” ou “tu não imagina com que freqüência isso acontece”)
Mas, man, Marilyn Monroe tem cara de quem lembraria das pessoas? Ela lembraria de você? Hein? Acho que não, camarada.

É isso aí, é a vida.
O não reconhecimento do próximo divide-se, segundo teorias de grandes estudiosos envolvidos no assunto(prazer!), em 5 níveis.
Nível 1: Quando você esquece a pessoa e depois de 2 ou 3 segundos lembra de quem é. Tipo “Oh, como fui me esquecer do frentista do posto em que abasteço?”
“Nível 2: Quando, dentre o decorrer da conversa, a pessoa cita um amigo em comum, situação ou lugar que te faz lembrar de quem o sujeito é. Tipo “E aí, nunca mais falou com o pessoal da turma?”
Nível 3: A partir daqui a pessoa já percebeu que você não sabe quem ela é. A diferença do Nível 3 pro Nível 2 é que a pista que te faz lembrar de quem ela é já é dada conscientemente. Aqui ela está tentando te lembrar da sua existência, tipo “Pô, tu não lembras daquele domingo detarde em que estávamos eu, tu e a Fulana na praça?” Aí você lembra, remendando com um “Como eu pude esquecer?” e tudo são flores.
Nível 4: Aqui o buraco é mais embaixo, parceiro. O nível 4 geralmente envolve algum porre homérico. Você lembra do lugar, ou da situação, ou da data, ou de TUDO ISSO, mas não lembra da pessoa. Dela e provavelmente de mais ninguém. São aquelas situações de memória parcial.
Nível 5: Se você chega aqui, provavelmente não é um grande desafio no jogo da memória. O nível 5 é aquela situação onde o camaradinha lhe explica tin-tin por tin-tin todo o acontecimento ou contexto em que vocês se conheceram, mas você não lembra nem dele, nem do dia, nem do lugar, nem de porra nenhuma.
Pode ainda vir a somar-se a essas cenas de constrangimento um quadro de miopia ou astigmatismo que te leva a, antes de não reconhecer, nem conseguir enxergar as pessoas. –o que já é um outro assunto, mas de efeito semelhante.
Nosso problema de memória, entretanto, tem um grande lado positivo. Sabe quando você está na fila do banco, e umas três cabeças à frente está aquela BAITA GOSTOSA? Então: imagina se tu já comeu, mas não lembra?
E aí, gostou??
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